Cultura do cancelamento: como isso afeta os jovens na escola?

Em pauta nas últimas semanas, o que chamamos de “cultura do cancelamento”, no funcionamento das relações virtuais, é a atitude de negar, rejeitar o outro como se ele não tivesse existido.

Ações como estas podem trazer consequências negativas tanto para quem é cancelado como para o “cancelador”, já que o sentimento de pertinência (pertencer, funcionar, se sentir parte de) no grupo, faz parte do desenvolvimento da humanidade.

Grupos, inclusão e cidadania

Assim, é quase impossível pensar em funcionamento de grupos sem abrir um breve parênteses e citar Pichon-Riviére, psicanalista argentino (1907-1977), que dedicou sua vida a estudos do processo e funcionamento destes grupos, nos quais ressalta que a construção de inclusão e cidadania se formam de maneira inconsciente, por meio dos diversos grupos, formais e informais, dos quais participamos ao longo de nossa vida e as diversas pluralidades a que somos expostos no decorrer desta jornada, sendo que estas nos auxiliam em nosso desenvolvimento, trazendo todos os tipos de consequências, tanto positivas e negativas.

De acordo com esse autor, um grupo se forma diante de um bem comum, a princípio, ainda indiscriminados, apenas se relacionam, de maneira inconsciente, em um espaço e tempo determinados, estreitando laços que vão se construindo com o único objetivo: o de realizar uma tarefa, confrontando-se neste processo com várias formas de identidades, gerando conflitos, que acarretam em crescimento, porém, trazendo ansiedades e, muitas vezes, angústias.

Ao agrupar pessoas com formas de pensar, agir e resolver tarefas, este grupo vai tomando forma única, gerando um movimento único de ser e pensar. 

Nesse processo de prática de grupos, Pichon, desenvolveu seus estudos e, mais tarde, os denominou de “Grupo Operativo” ou “ Grupo em Tarefa”, nos quais, como Psicanalista, procurava responder a duas grandes questões da vida social: o medo a perda (perder o que se já tem) e medo ao ataque (medo diante do desconhecido).

Para este autor, o aprendizado em grupo significa o enfrentamento de dúvidas, parcerias, busca de soluções, enfim resoluções de problemas. Com esse olhar mais específico a respeito do funcionamento de grupos, percebemos que o “cancelar” está relacionado ao não pensar igual.

O cancelamento e a velocidade das redes sociais

As redes sociais são um território no qual as pessoas acreditam que possam se expressar livremente, sem pudor e livre de qualquer julgamento. Mas não se atentam que toda atitude, fala e escrita que se faça, que esteja em desacordo com o que determinado grupo deseja, se espalha com uma velocidade inimaginável. Como se sentem livres para expressar suas opiniões, muitas vezes não percebem que um comentário, ou opinião, possa estar carregada de preconceitos e pensamentos que não estão de acordo com o que a sociedade aceita hoje. 

Como esta velocidade da rede é incomparável, o refletir no conteúdo da postagem aparece depois do impulso em clicar o botão ”publicar” perdendo-se o tempo, após a publicação de se retratar, em poucos minutos a opinião grupal já está formada e como juízes sagazes de tribunais da era medieval, realizam um julgamento implacável, fazendo com que a sentença – o cancelamento – seja determinada sem direito a recurso. Tanto o que opina, de maneira impulsiva, carrega julgamentos como o que cancela estão do mesmo lado no quesito de apontar as falhas do outro.

Cancelamento, adolescência e escola: quais os impactos?

Sendo uma fase de transformações, o desejo maior nesta idade é de ser aceito por seus colegas. Mesmo sendo os julgadores, apesar de não ter uma opinião formada, os jovens agem no sentido de cancelar por necessidade de uma resposta ao seu grupo e este movimento grupal impele a construção de sentimentos de pertencimento, gerando uma sensação de criticidade, julgadores e intolerantes diante de qualquer opinião alheia. 

Já o cancelado, pode se desorganizar, desencadeando um sentimento de abandono, exclusão, solidão e desprezo por parte dos seus, causando um dano à saúde mental. Todos cometemos erros, isso é inevitável, e o instrumento mais adequado para o auxílio é dar espaço para o crescimento emocional, possibilitando a internalização de se apropriar de formas menos agressivas de apontar para o outro que sua atitude pode ferir, sendo esses fatores gatilhos emocionais para os medos a perda e ao ataque de algo desconhecido.

A atitude mais certa é oferecer para estes grupos espaços saudáveis para que se possa fomentar a construção do diálogo, já que é dentro do diálogo, que os sentimentos de pertencimento, cooperação, comunicação, pertencimento se constroem, gerando a aprendizagem socioemocional. Cabe também ao colégio propiciar debates construtivos e alimentar o sentimento de perdão, resiliência e gratidão.